Maré viva, maré morta: glossário de marés para quem nunca leu o Hidrográfico

Um pescador em Setúbal abre a tábua de marés, vê “preia-mar às 07h42, altura 3,4 metros”, e sabe em três segundos se vai sair de manhã ou à tarde. Um surfista em Peniche faz a mesma leitura com o swell e o vento. Uma mãe a levar os filhos ao Portinho da Arrábida percebe pelos números se vai haver praia ou se o mar vai estar encostado às rochas.

Para o resto de nós, aquela grelha é um enigma com números aleatórios.

Praia portuguesa em baixa-mar de águas-vivas com areal extenso descoberto
[Imagem a substituir: tábua de marés impressa ou praia em baixa-mar extensa, 1200×675px]

Este post é um dicionário. Explica as palavras que o Instituto Hidrográfico usa todos os dias nas suas publicações, nas tábuas afixadas em todas as capitanias do país, e nos apps de marés que milhões de portugueses consultam sem entender metade do que estão a ler. São sete termos. Dominá-los muda a forma como se olha para uma praia.

Preia-mar e baixa-mar

A dupla mais simples.

Preia-mar é o instante em que a maré atinge a altura máxima num ciclo. Não é quando o mar está a subir. É o pico, o ponto em que para de subir e começa a descer. Baixa-mar é o oposto: o ponto mínimo, quando para de descer e começa a subir.

Entre uma preia-mar e a baixa-mar seguinte passam aproximadamente 6 horas e 12 minutos. Entre duas preia-mares consecutivas, cerca de 12 horas e 25 minutos. Em Portugal continental, como em quase toda a costa atlântica europeia, há duas preia-mares e duas baixa-mares por dia. A este padrão chama-se maré semidiurna.

Se alguém diz “estamos em preia-mar”, está a dizer uma coisa específica e curta. É um instante, não um estado prolongado. O que se prolonga chama-se outra coisa.

Enchente e vazante

Enchente (ou fluxo) é o período em que a maré está a subir, entre a baixa-mar e a preia-mar seguinte. Vazante (ou refluxo) é o período em que está a descer.

Cada um destes períodos dura cerca de 6 horas. Durante a enchente, a água entra nos estuários, inunda os lodos, faz subir o nível nas praias. Durante a vazante, volta a sair, descobre rochedos, expõe as poças. Para quem apanha marisco, a vazante é o momento: o caminho que se abre quando a água se retira revela búzios, lapas, ouriços, percebes.

Regra dos doze avos: a maré sobe pela sequência 1:2:3:3:2:1 ao longo das seis horas de enchente. O maior movimento acontece a meio, não nas pontas.

Regra prática usada pelos pescadores há séculos

Uma regra prática útil, conhecida como regra dos doze avos (ou regra dos duodécimos), descreve como a maré sobe durante a enchente. A subida distribui-se pela sequência 1:2:3:3:2:1 ao longo das seis horas, ou seja:

  • 1ª hora: sobe 1/12 da amplitude total
  • 2ª hora: sobe 2/12
  • 3ª hora: sobe 3/12
  • 4ª hora: sobe 3/12
  • 5ª hora: sobe 2/12
  • 6ª hora: sobe 1/12

O maior movimento acontece a meio, não nas pontas. É por isto que o mar parece “parar” perto da preia-mar e da baixa-mar. Tecnicamente, está a abrandar.

Águas-vivas e águas-mortas

Diferença entre águas-vivas e águas-mortas conforme o alinhamento da Lua e do Sol
[Imagem a substituir: diagrama Terra-Lua-Sol em alinhamento vs ângulo reto, 1200×700px]

Aqui está onde o vocabulário começa a revelar a lua.

Águas-vivas (em castelhano, mareas vivas; em inglês, spring tides) são as marés mais amplas do mês, as que sobem mais alto e descem mais baixo. Acontecem duas vezes por mês, nos dias próximos da Lua Nova e da Lua Cheia. Nestas fases, a Lua e o Sol estão alinhados com a Terra (em conjunção na Lua Nova, em oposição na Lua Cheia), e as suas forças de maré somam-se.

Águas-mortas (em castelhano, mareas muertas; em inglês, neap tides) são as marés mais suaves, as que sobem menos alto e descem menos baixo. Acontecem também duas vezes por mês, nos dias próximos dos Quartos Crescente e Minguante. Nestas fases, a Lua e o Sol formam um ângulo de 90° visto da Terra, e as suas forças contrariam-se parcialmente.

A diferença entre os dois regimes é real e mensurável. Em Portugal continental, a amplitude média da maré ronda os 2,1 metros. Em águas-vivas chega aos 3,6 metros. Em Lisboa, pelo efeito do estuário do Tejo, atinge os 4,1 metros. Em águas-mortas, a amplitude pode ser inferior a 1,5 metros. A diferença prática é enorme: uma praia que em águas-vivas descobre 50 metros de areal em baixa-mar, em águas-mortas descobre só 15 ou 20.

Os pescadores portugueses sabem isto há séculos sem terem lido um manual de astronomia. “Aguardar as águas-vivas” é expressão corrente em muitas comunidades piscatórias do litoral.

Coeficiente de maré

Uma palavra que aparece em muitos apps e que confunde muita gente.

O coeficiente de maré é uma escala de 20 a 120 usada sobretudo em França e nos apps internacionais derivados dela (Surfline, Tabuademares, Windy). O Instituto Hidrográfico português não publica coeficientes. Publica diretamente as horas e as alturas em metros. Quem consulta a tábua oficial portuguesa lê “preia-mar às 14h37, altura 3,8 m” e não precisa de mais nada.

Ainda assim, vale a pena saber ler o coeficiente, porque os apps mais usados trazem-no. A escala funciona assim:

  • 20 a 40: águas-mortas fracas. Marés quase imperceptíveis.
  • 40 a 70: marés médias, condições normais.
  • 70 a 95: águas-vivas. Amplitude forte.
  • 95 a 120: águas-vivas excecionais ou “equinociais”. Os maiores desníveis do ano.

Os coeficientes mais altos acontecem tipicamente perto dos equinócios (Março e Setembro), quando o Sol está sobre o equador e a sua contribuição gravitacional alinha-se melhor com a da Lua. São dias em que se descobrem baixios que o resto do ano ficam sempre submersos, e em que lugares habitualmente acessíveis ficam cobertos de água.

Para quem mora na costa: um fim-de-semana com coeficiente 105 no equinócio de Março é um dos espetáculos naturais mais discretos do ano. A praia muda. Vale ir ver.

Zero Hidrográfico

Zero Hidrográfico em Portugal e relação com o nível médio do mar
[Imagem a substituir: esquema Nível Médio do Mar / Zero Hidrográfico / preia-mar / baixa-mar, 1200×600px]

Quando uma tábua diz que a maré em Lisboa às 14h37 está a “+2,3 metros”, a pergunta é: 2,3 metros em relação a quê?

A resposta é: em relação ao Zero Hidrográfico (ZH) do porto em questão. O ZH não é o nível médio do mar. É uma referência mais baixa, escolhida deliberadamente para que o valor da maré seja quase sempre positivo. Na prática, o ZH é aproximadamente o nível mais baixo que a maré astronómica atinge num porto. Com este referencial, uma carta náutica que diz que um baixio está a 1,8 m sabe-se imediatamente que com maré a +2,5 m há 4,3 m de água naquele sítio.

Este sistema foi padronizado internacionalmente para uso em cartas náuticas e é a referência de todas as tábuas portuguesas publicadas pelo Instituto Hidrográfico. Cada porto tem o seu ZH próprio. O ZH de Lisboa não é o ZH de Faro. Por isso não se pode comparar diretamente um valor de maré entre dois portos sem saber qual é o ZH de cada um.

Desigualdade diurna

Um detalhe técnico que quase ninguém nota, mas que está sempre lá.

Em Portugal, as duas preia-mares do dia não têm exatamente a mesma altura, e as duas baixa-mares também não. Uma é ligeiramente mais alta ou mais baixa que a outra. Chama-se desigualdade diurna e resulta da combinação complexa entre a órbita da Lua (inclinada 5° em relação à ecliptica) e a inclinação do eixo da Terra (23,5°).

A desigualdade é pequena em Portugal. Em Cascais, o chamado “número de forma” é 0,097, o que indica desigualdade pouco significativa, sobretudo em águas-vivas. Em águas-mortas, a assimetria pode tornar-se mais visível. É por isto que os mapas de marés bem feitos nunca mostram apenas uma curva “idealizada”. Mostram a curva real, com a sua assimetria subtil.

Zero Hidrográfico vs Nível Médio

Último par, que só vale a pena dominar para quem quer mesmo falar a língua.

O Nível Médio do Mar (NMM) é a altura média da superfície do mar medida ao longo de vários anos, eliminando o efeito das marés. É a referência usada em altimetria terrestre (o “metros acima do nível do mar” das placas das estradas).

O Zero Hidrográfico está entre 2 e 2,5 metros abaixo do Nível Médio do Mar em Portugal continental.

Referência oficial do Instituto Hidrográfico

O Zero Hidrográfico está entre 2 e 2,5 metros abaixo do NMM em Portugal continental, conforme o porto, o suficiente para que a maré astronómica nunca, ou quase nunca, desça abaixo dele.

Isto explica uma coisa que confunde muita gente: a altura da maré numa tábua não é a altura da água em relação à praia. Para saber a altura real na praia, é preciso cruzar a tábua com a batimetria local (a profundidade do fundo naquele ponto específico em relação ao ZH). Os pescadores locais fazem esta conta de cabeça, por conhecimento empírico da sua costa. Para quem chega de fora, é uma aprendizagem.

O que fica

Poster de marés anual Portugal com data pessoal gravada
[Imagem a substituir: poster de marés emoldurado ou tábua oficial IH, 1200×800px]

Seis horas e doze minutos. Duas semanas para a Lua voltar à posição certa. Escala francesa de 20 a 120 para quem usa apps, altura em metros para quem consulta o IH. Zero Hidrográfico dois metros abaixo do nível médio. Uma regra dos doze avos que descreve a velocidade da subida pela sequência 1:2:3:3:2:1.

Com estes números, uma tábua de marés deixa de ser uma grelha aleatória e passa a ser o que é: a previsão exata, calculada meses à frente, de como o oceano vai respirar em cada porto português. O Instituto Hidrográfico publica a tábua anual para Portugal continental, Madeira e Açores todos os anos. É o documento técnico que os navegadores portugueses consultam desde há décadas, hoje disponível online em hidrografico.pt.

Um poster de marés personalizado não é mais do que isso: uma página dessa tábua, escolhida por quem a olha e a reconhece como uma data importante.