O que é um calendário de marés personalizado e como é calculado

A 1 de Novembro de 2011, Garrett McNamara desceu uma onda de 23,77 metros na Praia do Norte, Nazaré. Foi recorde mundial, homologado pelo Guinness em 2012. Seis anos depois, a 8 de Novembro de 2017, o brasileiro Rodrigo Koxa surfou na mesma praia uma onda de 24,38 metros e partiu o recorde. Três anos depois, a 29 de Outubro de 2020, o alemão Sebastian Steudtner surfou 26,21 metros e partiu o de Koxa. É esse o recorde que continua de pé.

Três surfistas, três recordes mundiais, todos na mesma praia portuguesa. Isto não é coincidência. É física.

A maré não é o mar a subir e descer. A maré é o mar, é a forma como a Lua e o Sol puxam a Terra e a Terra se puxa a si própria, duas vezes por dia, com uma precisão que se mede em minutos. Um calendário de marés personalizado mostra essa forma para uma data e um lugar específicos. Parece simples, e é.

O que quase nunca se explica é porque é que cada curva num poster daqueles é única no mundo, o que é que os números significam, e porque é que a maré em Peniche não é a mesma que a maré em Faro à mesma hora. Este post é essa explicação.

O que um calendário de marés realmente mostra

A curva num poster de marés é a altura da água em relação ao Zero Hidrográfico, plotada ao longo do tempo. Não é nada mais, nada menos.

Duas preia-mares e duas baixa-mares por dia, com um período médio de 12 horas e 25 minutos entre preia-mares.

Maré semidiurna · Portugal continental

O Zero Hidrográfico (ZH) não é o nível médio do mar. É uma referência mais baixa, escolhida deliberadamente para que o valor da maré seja quase sempre positivo. Em Portugal, o ZH é o nível abaixo do qual a maré raramente desce, o que torna a leitura prática para navegação: se a carta diz que um baixio está a 2 metros e a maré está em +1,5m, há 3,5 metros de água naquele sítio. Este sistema foi padronizado internacionalmente para cartas náuticas. O poster de marés que penduras na parede usa exatamente a mesma convenção com que os pescadores decidem se saem para o mar.

Em Portugal continental, a maré é semidiurna. Isto tem um nome técnico que esconde uma coisa bonita: a Terra roda debaixo de uma onda de maré que tem dois altos e dois baixos por cada dia lunar de 24 horas e 50 minutos. Logo, duas preia-mares e duas baixa-mares por dia, com um período médio entre preia-mares de 12 horas e 25 minutos. A cada dia, a maré chega cerca de 50 minutos mais tarde. Se hoje a preia-mar é às 10h, amanhã é perto das 10h50, depois de amanhã perto das 11h40, e assim por diante até o ciclo recomeçar ao fim de cerca de duas semanas.

Num poster anual, o padrão forma uma onda sinusoidal modulada por outra onda mais lenta, que é o ciclo das fases da lua. É isto que torna os posters visualmente interessantes: não é uma linha caótica, é matemática.

Porquê a Lua e o Sol fazem o que fazem

A Mecânica das Marés: Influência do Sol e da Lua

A maré é gravidade, mas gravidade aplicada a um corpo que tem tamanho, o que muda tudo.

A Lua puxa com mais força o lado da Terra que está mais próximo dela do que o lado mais afastado. A diferença entre estas duas forças, chamada força de maré, estica a Terra levemente, criando uma protuberância de água do lado voltado para a Lua e outra no lado oposto. Isto é contra-intuitivo e é a razão de haver duas preia-mares por dia em vez de uma.

O Sol faz o mesmo, com cerca de 46% da força da Lua (apesar de ser muito maior, está muito mais longe; o efeito cai com o cubo da distância, não com o quadrado). Quando Lua, Terra e Sol se alinham, em Lua Nova ou Lua Cheia, as forças somam-se. Chama-se águas-vivas. Quando estão em ângulo reto, em Quarto Crescente ou Quarto Minguante, as forças contrariam-se parcialmente e a maré é mais suave. Chama-se águas-mortas.

Em Lisboa, as águas-vivas chegam a 4,1 metros de amplitude — o dobro da média nacional, pelo efeito funil do estuário do Tejo.

Amplitude média Portugal · 2,1 m

A amplitude média da maré em Portugal continental é de cerca de 2,1 metros. Em águas-vivas chega aos 3,6 metros e em Lisboa, pelo efeito do Tejo, atinge 4,1 metros, ou seja o dobro. Em Cascais, 3,65 m. Num poster anual, estes picos aparecem como picos visíveis no padrão, a cada duas semanas, como o batimento de um coração lento.

Isto significa uma coisa prática: quem escolhe a data certa para um poster de marés está a escolher entre um padrão calmo ou um padrão espetacular. Uma semana de Lua Nova ou Lua Cheia produz curvas com amplitude quase dupla de uma semana de quartos. Nenhuma loja que vende estes posters te vai avisar disto. Vale a pena saber.

O mesmo dia, marés diferentes: porque é que Peniche não é Faro

Uma curiosidade que quase ninguém sabe: a maré viaja. Entra pelo sul e sobe para norte ao longo da costa portuguesa.

Segundo medições do Instituto Hidrográfico e do modelo de marés da Faculdade de Ciências de Lisboa (Antunes, 2007), a onda de maré demora cerca de 35 minutos a percorrer de Lagos a Leixões, uma velocidade média de 840 km/h. Entre portos próximos, o desfasamento é de 5 a 10 minutos. Isto significa que quando em Faro a maré está na sua altura máxima, em Viana do Castelo ainda falta meia hora para lá chegar.

Para um poster de marés, isto traduz-se em algo muito concreto. A mesma hora, o mesmo dia, mas Peniche e Cascais produzem curvas ligeiramente diferentes. Não por muito, uns minutos de desfasamento, uns centímetros de diferença na amplitude, mas diferentes. Um poster da Praia do Norte da Nazaré e outro da Praia de Carcavelos para a mesma data são dois posters distintos, e cada surfista que os vê reconhece qual é qual.

A longitude e a geometria da costa também contam. O Tejo em Lisboa funciona como um funil que comprime a onda e amplifica-a, daí os 4,1 metros em águas-vivas, valor muito acima da média nacional. O estuário do Sado, a Ria Formosa, a foz do Douro: cada um tem o seu próprio comportamento. Um poster de marés de Setúbal é geograficamente distinto de um poster de marés de Peniche; um poster da Barra do Douro obtém-se da tabela de Leixões com uma correção de +16 minutos no tempo e uma relação de amplitude de 0,93, segundo a APDL. Estes valores estão publicados. Qualquer loja séria aplica-os.

O canhão da Nazaré, ou como Portugal partiu a escala

Morfologia do Canhão da Nazaré

Há um sítio em Portugal onde as regras normais das marés e das ondas deixam de se aplicar: a Praia do Norte da Nazaré.

Por baixo da superfície, a cerca de 500 metros da praia, começa uma fenda no fundo do oceano. Chama-se Canhão da Nazaré. Tem cerca de 200 quilómetros de comprimento e atinge cerca de 5.000 metros de profundidade. É o maior canhão submarino da Europa e um dos maiores do mundo.

O que isto faz às ondas é um fenómeno raro. Em quase toda a costa portuguesa, as ondas perdem energia à medida que se aproximam da praia, pois o fundo mais raso trava-as por fricção. No canhão da Nazaré, acontece o oposto: a ondulação entra por águas muito profundas onde praticamente não encontra resistência, mantém velocidade e energia, e só perde profundidade mesmo junto à praia. A energia tem de ir para algum lado. Vai para cima. Multiplica a altura da onda por três, quatro, cinco vezes a altura do swell em mar aberto.

É por isto que:

  • Em 1 de Novembro de 2011, num dia de swell grande do Atlântico Norte com direção W-NW, Garrett McNamara apanhou uma onda de 23,77 metros.
  • Em 8 de Novembro de 2017, Rodrigo Koxa apanhou uma onda de 24,38 metros. Segundo o próprio, um swell de período longo e direção noroeste tão perfeita para o canhão que formou triângulos simétricos onde se podia descer direto.
  • Em 29 de Outubro de 2020, Sebastian Steudtner apanhou uma onda de 26,21 metros que continua a ser recorde mundial.

Há ondas de 30 metros registadas na Nazaré e em quase mais nenhum sítio do mundo.

A maré num dia desses não é particularmente especial no valor absoluto, ronda os 3 metros. O que é especial é o canhão. Mas a maré faz parte da coreografia: a subida e a descida mudam a profundidade junto à costa em vários metros, alteram o ponto onde a onda rebenta, e determinam se o spot está perigoso ou apenas grande. Surfistas da Nazaré cruzam a tábua de marés do Instituto Hidrográfico com o tamanho da ondulação prevista antes de entrar na água. É ciência aplicada à sobrevivência.

Um poster de marés da Nazaré com a data de um dia de swell grande contém, silenciosamente, todos estes dados. Para quem sabe ler, é uma radiografia do dia. Para quem não sabe, é uma curva bonita. Ambas as leituras valem.

O que um calendário de marés personalizado é, e o que não é

A maré num dia qualquer em qualquer sítio do planeta é calculada com recurso a constantes harmónicas, dezenas de coeficientes que descrevem a contribuição de cada componente astronómica para a maré local. As principais são:

  • M2, semidiurna lunar (período 12h 25min)
  • S2, semidiurna solar (12h)
  • N2, elíptica lunar (12h 39min)
  • K1, diurna luni-solar
  • O1, diurna lunar

O Instituto Hidrográfico publica estas constantes para cada porto principal português, e o modelo da Faculdade de Ciências de Lisboa aplica-as a qualquer data.

Isto significa que a maré na Praia do Guincho às 14h37 do dia 8 de Junho de 2024 é um valor calculável, reproduzível, e com erro tipicamente reduzido em relação ao que o maregráfico mediu naquele dia. Um poster com essa data mostra a curva real.

Não é um gráfico genérico. Não é uma ilustração bonita. É o estado físico do oceano naquele lugar, naquele dia.

Uma distinção que vale a pena fazer: calendário de marés não é o mesmo que relógio lunar nem gráfico de fases da lua. São coisas distintas que às vezes aparecem juntas nos mesmos posters. O calendário de marés mostra altura de água. O calendário lunar mostra em que fase a Lua está em cada dia. Os dois estão ligados causalmente, porque a Lua puxa a maré, mas são medições de coisas diferentes.

O que fica mesmo no poster

Fica uma curva que existe fisicamente. Fica a data em que aconteceu, o porto onde se mediu, o Zero Hidrográfico como referência. Fica, em silêncio, o resultado da Lua a puxar a Terra e do fundo do mar a conversar com a onda.

Fica também uma coisa mais difícil de explicar. Quem tem uma relação com uma praia específica, como os anos de infância em Vieira de Leiria, as férias na Ericeira, o primeiro mergulho no Portinho da Arrábida, olha para um poster da maré desse sítio num dia específico e vê uma coisa que o resto do mundo não vê. Vê uma manhã. Vê a temperatura da água. Vê o cheiro da areia seca ao meio-dia. A curva não é a memória, mas é o terreno físico onde a memória aconteceu.

Por isso se compra um poster destes. Não é pela estética. É porque o mar, aquele mar, daquele dia, existiu exatamente assim, e agora tem-se uma prova matemática.