O marégrafo de Cascais mede o mar desde 1882 — e o zero de Portugal já não existe

A 28 de maio de 1895, às oito e cinco da noite, quatro homens pegaram num aparelho de relojoaria e transportaram-no cinquenta metros ao longo da baía de Cascais. Às dez e quarenta e cinco estava outra vez a escrever. O papel tinha sido posto no cilindro nessa manhã de propósito: metade da curva da maré daquele dia ficou traçada na casa velha, metade na casa nova.

O aparelho nunca mais parou. Faz este ano cento e quarenta e quatro anos que escreve o mar.

Calendário de marés da Nazaré emoldurado, com as doze bandas mensais
A curva que um calendário de marés desenha é a mesma que o marégrafo de Cascais traça todos os dias desde 1882.

Este post é o que essa linha de tinta diz sobre o mar português — e sobre uma coisa incómoda que se descobre quando se olha para ela com atenção: o zero a partir do qual se medem todas as altitudes de Portugal continental é um nível do mar que já não existe.

O aparelho

A Direcção Geral dos Trabalhos Geodésicos decidiu em 1881 instalar um marégrafo em Cascais. Esse ano foi de testes; o funcionamento em pleno começou em 1882, e é essa a data que conta. Ficou na enseada, a leste da fortaleza.

O mecanismo é um sistema de bóia e flutuador da casa parisiense de A. Borrel, com um relógio de 1877. Vale a pena corrigir aqui um erro que circula até na Wikipédia, que atribui o fabrico a J. Wagner: Jean Wagner morreu em 1875, e em 1877 a oficina já era de Amédée Borrel, que lhe sucedeu. Os relatórios oitocentistas portugueses chamam-lhe sempre, com todas as letras, «o marégrapho de Borel».

A mudança de 1895 aconteceu porque a areia se acumulava dentro do tubo que abrigava o flutuador e o aparelho deixava de registar as grandes baixa-mares. É esse pormenor mundano — areia num tubo — que está na origem da série de dados mais valiosa que Portugal tem sobre o seu mar.

Hoje quem o opera é a Direção-Geral do Território, e não o Instituto Hidrográfico, ao contrário do que se lê com frequência. Na rede maregráfica nacional, Cascais e Lagos são da DGT; todas as outras estações são do Instituto Hidrográfico. O edifício está classificado como Imóvel de Interesse Público desde 1997.

A linha que nunca parou

A série tem três eras. O marégrafo analógico de Borrel escreveu de janeiro de 1882 a outubro de 2003. Um marégrafo digital acústico, instalado na marina a duzentos e cinquenta metros, assumiu de novembro de 2003 a junho de 2019. Desde julho de 2019 mede um marégrafo de radar. O intervalo de registo passou de seis para três minutos em 2010.

O mecanismo de 1882 continua a funcionar. Já não é ele que produz o dado oficial — serve para calibrar o digital. Um aparelho de relojoaria do século XIX a conferir um radar do século XXI.

Convém, ainda assim, resistir a um superlativo que fica bem e não se aguenta: este não é o marégrafo mais antigo do mundo ainda em funcionamento. Nenhuma fonte oficial portuguesa o afirma — a Direção-Geral do Património Cultural escreve «um dos mais antigos», e o relatório técnico de 2007 escreve «um dos raros». O marégrafo de Marselha, que define as altitudes de França, entrou ao serviço a 1 de fevereiro de 1885 e continua igualmente a ser lido todas as semanas. São três anos de diferença. A formulação que aguenta escrutínio é a de Antunes e Taborda: o mais antigo de Portugal e de toda a Península Ibérica.

O que a linha diz

Taxas de subida e de descida do nível médio do mar em Cascais entre 1900 e 2016
Uma série de cento e quarenta anos não é uma rampa: há décadas em que o nível médio desceu.

O mar subiu. Mas não em linha recta, e é essa a parte que os gráficos de jornal costumam esconder.

Entre 1920 e 2000, o nível médio do mar em Cascais subiu a 1,94 milímetros por ano — cento e cinquenta e cinco milímetros em oitenta anos. Entre 2000 e 2016 a taxa foi de 3,0 mm por ano. Entre 2005 e 2016, de 4,1. Os números são de Carlos Antunes, do Instituto Dom Luiz da Faculdade de Ciências de Lisboa, publicados em 2019 no Journal of Marine Science and Engineering.

155 milímetros em oitenta anos, entre 1920 e 2000. E 4,1 milímetros por ano entre 2005 e 2016.

Antunes · Journal of Marine Science and Engineering, 2019

Mas dentro desses oitenta anos houve décadas em que o mar em Cascais desceu. De 1900 a 1920, a −1,8 mm por ano. De 1966 a 1977, a −3,0. Uma série de cento e quarenta anos não é uma rampa: é uma escada com degraus para trás. É precisamente por isso que dez anos de dados não servem para nada e cento e quarenta servem para tudo.

Há ainda um efeito que joga no sentido contrário à intuição. O terreno de Cascais está a subir, cerca de 0,24 milímetros por ano desde 1990, o que significa que a subida real do mar é maior do que a que o marégrafo regista. É essa estabilidade tectónica — pequena e bem medida — que faz de Cascais um dos registos mais limpos do Atlântico nordeste, e a razão pela qual estudos globais o usam.

O zero de Portugal é um mar que já não existe

Esquema do datum Cascais 1938, do nível médio do mar actual e do Zero Hidrográfico
O zero das altitudes é a média do mar entre 1882 e 1938. O mar está hoje cerca de vinte e três centímetros acima dele.

Aqui está a parte que quase ninguém sabe.

Toda a altitude de Portugal continental — a cota de um monte numa carta militar, a cota de uma soleira num projecto de engenharia, os 1 993 metros da Torre — conta-se a partir de um referencial chamado Cascais Helmert 1938. E esse referencial é, nas palavras da própria Direção-Geral do Território, a média dos níveis médios das águas do mar em Cascais entre 1882 e o último dia de 1938.

O datum foi definido a partir da média dos níveis médios das águas do mar em Cascais para o período entre 1882 e o último dia do ano de 1938.

Direção-Geral do Território · Sistemas de Referência

Ou seja: o zero das altitudes portuguesas é a média de cinquenta e sete anos de mar, medida por um aparelho de relojoaria, numa enseada a oeste de Lisboa.

E o mar entretanto subiu. Em 2000 estava treze centímetros acima desse zero. Hoje anda, segundo a Faculdade de Ciências de Lisboa, na ordem dos vinte e três centímetros acima — número que, em rigor, só encontrámos publicado nessa fonte, e não num documento oficial da DGT ou do Instituto Hidrográfico.

Toda a cartografia nacional mede-se a partir de uma superfície que o Atlântico abandonou há décadas. Não é um erro: é uma convenção, e as convenções têm de ser estáveis para servirem. Mas é uma daquelas coisas que, uma vez sabidas, mudam a forma de olhar para um número numa carta.

Dois zeros, e a confusão que fazem

O nível médio do mar de Cascais é o zero das altitudes em terra. O Zero Hidrográfico é o zero das profundidades e das alturas de maré no mar. São coisas diferentes, separadas por cerca de dois metros, e confundi-los é o erro clássico de quem lê uma tábua de marés pela primeira vez.

Os valores estão publicados pelo Instituto Hidrográfico. Em Cascais, Lisboa e no estuário do Tejo, o Zero Hidrográfico está 2,08 metros abaixo do nível médio adoptado. Em todo o restante Portugal continental — Viana, Leixões, Aveiro, Figueira, Peniche, Sines, Lagos, Faro — está 2,00 metros. No Funchal, 1,40. Nos Açores, 1,00.

É uma diferença de oito centímetros que parece irrelevante e não é: quem aplicar um valor único a todo o continente está errado num dos dois grupos, e nas praias do Tejo o erro cai justamente onde a maré é maior do país.

Uma nota portuguesa que ninguém conta

Os dados do marégrafo de Cascais são enviados há décadas para o Permanent Service for Mean Sea Level, o arquivo mundial do nível do mar, sediado em Liverpool. Cascais é a estação número 52.

Esse serviço nasceu de um comité criado em 1933, na conferência da União Geodésica e Geofísica Internacional. Que se realizou em Lisboa.

Uma correcção, já agora, a outro número que circula: costuma dizer-se que Leixões mede desde 1956. Mede desde 1890. Os 1956 são apenas o início da série no arquivo internacional; Araújo e colegas publicaram em 2013, no Journal of Hydrology, a análise dos cem anos anteriores. Repetir «1956» é repetir uma limitação de arquivo como se fosse um facto histórico.

Para onde vai a linha

O relatório do IPCC de 2021 projecta, para o nível médio global do mar em 2100 e relativamente à média de 1995-2014, uma subida de 0,44 a 0,76 metros no cenário de emissões intermédias e de 0,63 a 1,01 metros no cenário de emissões muito altas. São intervalos, não números.

Para a costa oeste portuguesa, Carlos Antunes projectou em 2019 uma subida média de 1,14 metros até 2100, com um intervalo provável entre 0,39 e 1,89, medida a partir do nível médio de 2000. Convém dizer o que este número é e o que não é: não é um cenário de emissões. É uma extrapolação estatística da própria série de Cascais e da altimetria por satélite. Não tem RCP nem SSP associado, e quem lhe colar um está a inventar.

O Roteiro Nacional para a Adaptação 2100, publicado pela Agência Portuguesa do Ambiente em 2024, traduz isto em contas: no cenário RCP4.5 a 2100, 587 quilómetros quadrados vulneráveis no continente, vinte mil edifícios e cinquenta e dois mil residentes. Faro e Setúbal são os distritos mais expostos.

E há um efeito contraintuitivo que vale a pena perceber, porque é específico daqui. A costa ibérica é, em toda a Europa, a que tem os maiores factores de amplificação dos eventos extremos — e é assim precisamente porque a variabilidade das marés e das sobrelevações é pequena. Onde a amplitude natural é grande, como no Mar do Norte, uma subida de meio metro perde-se no ruído. Onde é pequena, como em Portugal, empurra depressa os temporais raros para a zona do frequente. O IPCC quantifica-o: os níveis extremos passarão a ocorrer vinte a trinta vezes mais frequentemente até 2050.

O que fica

Anatomia de um calendário de marés: doze bandas mensais, curva da maré, horas de preia-mar, índice de amplitude, fases da Lua e Zero Hidrográfico
A anatomia de um calendário de marés: doze bandas, uma por mês, referidas ao mesmo Zero Hidrográfico das tábuas oficiais.

Fica um aparelho de relojoaria numa casa de pedra à beira da baía de Cascais, a escrever uma linha desde 1882, e a produzir com isso duas coisas ao mesmo tempo: o zero a partir do qual se mede a altura de todo o país, e a prova, em milímetros, de que o mar está a subir mais depressa do que subia.

Um calendário de marés não mede nada disto. Não é um instrumento e não substitui as publicações oficiais. O que faz é usar a mesma referência — o Zero Hidrográfico — e desenhar, para um ano e um lugar, a curva que aquele aparelho traça todos os dias há cento e quarenta e quatro anos.

É a mesma linha, num pedaço mais curto de tempo.

Fonte e limitações

Dados de previsão de marés baseados em informação publicada pelo Instituto Hidrográfico.

Produto independente, sem associação institucional ao Instituto Hidrográfico. A informação apresentada não deve ser utilizada para navegação, segurança marítima ou planeamento de operações no mar. Para esses fins, devem ser consultadas as publicações e os serviços oficiais do Instituto Hidrográfico.

Modelo de marés: EOT20 — Hart-Davis et al. (2021), DGFI-TUM, doi:10.17882/79489, CC BY 4.0.