A escala do Sistema Solar não cabe em papel nenhum

O Céu04.09.2026 · 11 MIN

A escala do Sistema Solar não cabe em papel nenhum

No Trilho do Sistema Solar de Paredes de Coura, o Sol tem 170 centímetros de diâmetro e os planetas estão distribuídos ao longo de um trilho com cerca de 8,6 quilómetros. É um Sistema Solar à escala de 1 : 831 000 000, aplicada às distâncias e às dimensões, e quem a publica é o Planetário do Porto, Centro Ciência Viva. O percurso nasceu do campo de férias científico AstroCamp, coordenado pelo astrofísico Carlos Martins, e está homologado pela agência Ciência Viva.

Mapa do Sistema Solar da Eterniza no dia 21 de dezembro de 2020, a grande conjunção de Júpiter e Saturno

A unidade que mede tudo isto é uma convenção, não uma medição

A unidade astronómica vale 149 597 870 700 metros exatamente. Não é uma medição, não é uma média de observações, não é um valor que mude com o instrumento: é uma constante convencional, escrita em metros e fixada pela União Astronómica Internacional na Resolução B2 da XXVIII Assembleia Geral, em agosto de 2012.

Antes disso era outra coisa. O valor determinava-se por via experimental e dependia do modelo, das observações e do sistema de referência usados, e o Observatório de Paris, que data a adoção do texto de 30 de agosto de 2012, descreve a mudança como a passagem de um valor experimental a um valor convencional.

Do metro, que é a distância percorrida pela luz no vácuo em 1/299 792 458 de segundo, sai então um terceiro número exato: a luz demora 499,004784 segundos, ou seja 8,316746 minutos, a atravessar uma unidade astronómica.

A unidade astronómica

149 597
870 700

metros, exatamente. IAU, Resolução B2, agosto de 2012.

8,32

minutos de luz numa unidade astronómica.

Oito distâncias, e a última é trinta vezes a da Terra

Segundo o Jet Propulsion Laboratory da NASA, na tabela de elementos keplerianos válida para o intervalo de 1800 a 2050, o semieixo maior da órbita de Neptuno é de 30,06992276 unidades astronómicas, ou seja 4 498 396 417 quilómetros. O da Terra é de 1,00000261. Os outros seis não se distribuem com regularidade nenhuma: Mercúrio, Vénus e Marte ficam todos abaixo das duas unidades astronómicas, e a partir daí o intervalo abre de vez, com Júpiter a pouco mais de cinco, Saturno a pouco menos de dez e Úrano a pouco mais de dezanove.

Há uma segunda tabela com os mesmos números. A teoria planetária VSOP87, de Pierre Bretagnon e Gérard Francou, do Bureau des Longitudes, publica-os com menos algarismos: 1,0000 para a Terra, 30,1096 para Neptuno. Parecem duas confirmações independentes. Não são: as constantes de integração do VSOP87 foram ajustadas à integração numérica DE200 do mesmo Jet Propulsion Laboratory, e o aviso técnico distribuído pelo Centre de Données astronomiques de Strasbourg desde 31 de maio de 1995 di-lo por escrito.

Em tempo de luz, a mesma distância mede-se assim: a órbita média de Neptuno fica a 4,1681 horas do Sol, quatro horas e dez minutos.

Semieixo maior, em UA

Terra1,00000261
Neptuno30,06992276

4,17 h

de luz até à órbita média de Neptuno.

Numa folha em que Neptuno toca as margens, a Terra fica a oito milímetros do Sol

As contas seguintes partem de três pressupostos declarados: o Sol no centro, o raio útil igual a metade do lado curto, que é o maior círculo que lá cabe, e nenhuma margem. Numa folha de 50 × 70 centímetros isso dá 250 milímetros de raio útil e uma escala de 8,313956 milímetros por unidade astronómica: cada milímetro de papel vale 17 993 586 quilómetros.

As oito órbitas planetárias à escala linear numa folha de 50 por 70 centímetros, com as quatro órbitas interiores ampliadas numa lupa lateral

FIG. 1

As oito órbitas planetárias à escala linear numa folha de 50 por 70 centímetros, com as quatro órbitas interiores ampliadas numa lupa lateral.

À escala linear verdadeira, os quatro planetas rochosos cabem nos primeiros 12,668 milímetros: 5,067 % do raio útil.

A órbita de Mercúrio fica com 3,2183 milímetros de raio, a da Terra com 8,3140 e a de Marte com 12,6681. Só depois é que o desenho abre, e abre de repente: Júpiter salta para 43,2566 milímetros, Saturno para 79,2875, Úrano para 159,5379.

O resto é vazio. O disco delimitado pela órbita de Marte ocupa 0,2568 % da área do disco delimitado pela órbita de Neptuno: visto de cima, quase todo o sistema planetário fica para lá de Marte. O texto oficial do modelo à escala de Estremoz resume-o sem uma única conta: «o Universo é essencialmente formado por vazio».

Raio da órbita, em mm

Mercúrio3,2183
Terra8,3140
Marte12,6681
Júpiter43,2566
Saturno79,2875
Úrano159,5379
Neptuno250,0000

0,2568 %

da área do disco de Neptuno é o que o disco de Marte ocupa.

O Sol não chega para uma gota de tinta

O diâmetro do Sol é de 1 391 400 quilómetros, dois raios solares nominais de 6,957 × 10⁸ metros fixados pela União Astronómica Internacional na Resolução B3 de 2015. Naquela folha, à escala das órbitas, o disco do Sol mede 77,33 micrómetros.

O disco do Sol dentro do contorno de uma gota de tinta a 300 pontos por polegada, ao lado de uma fila de 119 Terras que enche uma gota igual

FIG. 2

O disco do Sol dentro do contorno de uma gota de tinta a 300 pontos por polegada, ao lado de uma fila de 119 Terras que enche uma gota igual.

Uma impressão a 300 pontos por polegada assenta a tinta em gotas de 84,67 micrómetros. O Sol inteiro vale 0,913 de uma dessas gotas.

A Terra está muito pior. O disco do planeta mede 0,7089 micrómetros, ou seja 709 nanómetros: seriam precisas 119 Terras lado a lado para encher uma única gota. Nem subir a resolução resolve. A 1200 pontos por polegada, com a gota a descer para 21,17 micrómetros, ainda seriam precisas 30 Terras por gota. E encolher a folha só agrava: numa de 30 × 40 centímetros, o disco do Sol desce a 46,40 micrómetros.

119

Terras lado a lado para encher uma gota de tinta a 300 dpi.

Ao micrómetro

Gota, 300 dpi84,67
Sol77,33
Terra0,7089

É praticamente impossível criar uma representação visual, num ecrã ou na página de um livro, que mostre ao mesmo tempo, de forma realista, os tamanhos dos planetas e as distâncias entre eles. O melhor que se consegue é mostrar ou os tamanhos certos ou as distâncias certas.

Jet Propulsion Laboratory da NASA · JPL Education, 18 de setembro de 2024, tradução

A escolha não é, portanto, entre um desenho fiel e um desenho comprimido. É entre duas fidelidades que não cabem na mesma folha.

O que uma escala logarítmica resolve, e o que ela estraga

Numa escala linear, a distância no papel é proporcional à distância real. Numa escala logarítmica, é proporcional ao logaritmo dessa distância: multiplicar por dez avança sempre o mesmo número de milímetros. A consequência tem duas metades, ambas exatas. A ordem mantém-se, porque o logaritmo é uma função estritamente crescente. As razões, não.

Comparação entre a escala linear verdadeira e uma escala logarítmica pura na mesma folha, com o raio de cada órbita em milímetros

FIG. 3

Comparação entre a escala linear verdadeira e uma escala logarítmica pura na mesma folha, com o raio de cada órbita em milímetros.

A Terra passa de 3,326 % para 21,80 % do raio útil, e os oito anéis ficam separados a olho. O que se perde vem a seguir.

A conta mostra a troca. Numa escala logarítmica pura, na mesma folha, com Mercúrio no centro e Neptuno na margem, a órbita da Terra passa de 8,314 para 54,512 milímetros e a de Marte de 12,668 para 78,701. Os oito anéis deixam de estar colados. Em troca, some a proporção: Neptuno está 30,07 vezes mais longe do Sol do que a Terra, e naquele desenho o anel de Neptuno é apenas 4,59 vezes maior do que o da Terra. Uma razão real de trinta fica desenhada como 4,6.

Nada disto é um truque de cartaz. A compressão logarítmica é o instrumento com que a astronomia trata grandezas que variam por ordens de grandeza, e a escala de brilho das estrelas usa-a desde 1856: Norman Pogson, então assistente no Radcliffe Observatory de Oxford, fixou nas Monthly Notices of the Royal Astronomical Society que cinco magnitudes valem cem vezes mais brilho, pelo que uma magnitude vale a raiz quinta de cem: 2,511886.

Terra, raio da órbita

Linear8,314 mm
Logarítmica54,512 mm

30 → 4,6

a razão real entre Neptuno e a Terra, e a razão que o desenho logarítmico mostra.

As órbitas não são circunferências, nem estão todas no mesmo plano

A escala é a primeira aproximação. A forma das órbitas é a segunda.

Segundo o Jet Propulsion Laboratory da NASA, a órbita de Mercúrio tem uma excentricidade de 0,20563593, a maior dos oito planetas: o ponto mais afastado do Sol está 1,52 vezes mais longe do que o ponto mais próximo. A da Terra é quase circular, e mesmo assim separa o periélio do afélio por quase cinco milhões de quilómetros.

Na folha de 250 milímetros de raio útil, essa oscilação toda vale 1,32 milímetros em Mercúrio e 0,278 milímetros na Terra. Um anel circular apaga-a.

E há uma terceira aproximação, a do plano. As oito órbitas não são coplanares: a de Mercúrio, a mais desviada de todas, está inclinada 7,00497902 graus em relação à eclíptica, que é, por definição, o plano da órbita da Terra. Um desenho plano projeta esse leque de sete graus num só plano e apaga-o também.

Mercúrio

Excentricidade0,2056
Inclinação7,005°

Três aproximações, não uma: a escala, a forma da órbita e o plano.

A metade exterior do mapa entrou tarde

Úrano foi observado por William Herschel a 13 de março de 1781, e a comunicação que a Royal Society leu a 26 de abril desse ano ainda o tratava por cometa. O Jet Propulsion Laboratory resume o efeito numa frase: «the size of the known planetary solar system had instantly doubled». Sessenta e cinco anos depois duplicou outra vez, quando Johann Galle encontrou Neptuno a 23 de setembro de 1846, no Observatório de Berlim, na posição que Urbain Le Verrier previra a partir do efeito de um planeta desconhecido sobre a órbita de Úrano.

Aquela metade exterior mede-se mal em anos humanos. O período orbital sideral de Neptuno é de 164,79132 anos, e foi a 12 de julho de 2011 que o planeta regressou ao ponto do espaço onde tinha sido descoberto, a primeira volta completa ao Sol desde 1846. Segundo a NASA, a 18 de novembro de 2026, às 02h16m07s da hora do Pacífico, a Voyager 1 estará a 25,902 mil milhões de quilómetros da Terra, a distância que a luz percorre em vinte e quatro horas. Um dia-luz.

Cronologia

Úrano13.03.1781
Neptuno23.09.1846
1.ª volta12.07.2011

164,79

anos no período orbital sideral de Neptuno.

Três modelos portugueses que tiveram de sair do papel

Quem constrói um modelo físico não tem a saída da compressão: ou cabe no espaço disponível, ou não cabe. As escalas são as publicadas por cada instituição; as dimensões e os raios de órbita, contas feitas a partir delas.

Comparação das três escalas portuguesas do Sistema Solar, com o raio da órbita de Neptuno em cada uma

FIG. 4

Comparação das três escalas portuguesas do Sistema Solar, com o raio da órbita de Neptuno em cada uma.

À escala do Planetário do Porto, a órbita de Neptuno teria 54,29 quilómetros de raio. A instituição escreve que não cabe no edifício nem na cidade.

Órbita de Neptuno

Porto54,29 km
Estremoz10,87 km
P. de Coura5,413 km

Planetário do Porto, Centro Ciência Viva: 1 : 82 857 100

O Planetário do Porto publica um modelo à escala de 1 : 82 857 100, com o Sol à medida da cúpula do edifício e os principais astros suspensos no átrio. A essa escala, a órbita da Terra teria 1,805 quilómetros de raio e a de Neptuno 54,29. O Planetário não esconde a consequência.

Contudo, à mesma escala, as dimensões das suas órbitas ultrapassariam, em muito, as dimensões do edifício… e da cidade…

Planetário do Porto, Centro Ciência Viva · modelo do Sistema Solar à escala 1 : 82 857 100

E resolve-a como o papel a resolve: com um diagrama.

Trilho do Sistema Solar, Paredes de Coura: 1 : 831 000 000

À escala de 1 : 831 000 000, um Sol de 1 391 400 quilómetros mede 1,674 metros, o que confere com os 170 centímetros publicados, e a órbita de Neptuno fica a 5,413 quilómetros. O percurso pedestre é outra coisa: tem cerca de 8,6 quilómetros, e é esse o número que o Planetário do Porto publica para o trilho.

Centro Ciência Viva de Estremoz: 1 : 414 000 000

Inaugurado a 1 de setembro de 2007 no Convento das Maltezas e registado no Roteiro das Minas da Direção-Geral de Energia e Geologia, o modelo de Estremoz trabalha a 1 : 414 000 000: um Sol de 3,361 metros, uma órbita da Terra com 361 metros de raio e uma órbita de Neptuno a 10,87 quilómetros. O texto oficial acrescenta o que a aritmética não diz: «Podemos facilmente aceitar e repetir estes números, mas na realidade não somos capazes de verdadeiramente os perceber».

Diâmetro do Sol

Porto16,79 m
Estremoz3,361 m
P. de Coura1,674 m

O que um Mapa do Sistema Solar em papel é, e o que não é

O Mapa do Sistema Solar da Eterniza não está à escala. Nenhum desenho que caiba numa folha está, e as contas acima dizem porquê: com Neptuno na margem, os quatro planetas rochosos ficam dentro dos primeiros 12,668 milímetros e o disco do Sol cai abaixo da resolução da impressão.

O poster declara-o no rodapé impresso, e a transcrição é literal: «Posições heliocêntricas pela teoria planetária VSOP87, Bretagnon e Francou (1988), Bureau des Longitudes. Escala radial logarítmica comprimida: os anéis dão a ordem das distâncias ao Sol, não a proporção entre elas. Órbitas representadas como circulares, projectadas no plano da eclíptica.»

São três renúncias, e nenhuma delas é pequena. A escala é comprimida, e a palavra não é um termo técnico: é o aviso de que o raio de cada anel foi ajustado para o desenho respirar. Os anéis dão a ordem e não a proporção: medir dois com uma régua e dividir um pelo outro não devolve a razão entre as distâncias reais. E as órbitas estão desenhadas como circunferências, quando a de Mercúrio é sensivelmente elíptica, e projetadas num só plano, quando ocupam um leque de sete graus.

Fiel fica outra coisa: a ordem das distâncias ao Sol e as posições heliocêntricas numa data. Vêm da teoria VSOP87, publicada por Bretagnon e Francou na Astronomy and Astrophysics em 1988, com uma precisão declarada de um segundo de arco ao longo de quatro mil anos antes e depois do ano 2000 para os planetas interiores, e de seis mil para Úrano e Neptuno.

Três renúncias

  • Escala comprimida
  • Ordem, não proporção
  • Órbitas circulares, num só plano

Declaradas no rodapé impresso do próprio poster.

O que fica

Fica a ordem, que é verdadeira, e fica a data, que é calculada. Fica também um rodapé que diz o que o desenho não faz, e é essa linha que separa um mapa de uma ilustração. Para medir distâncias existem as tabelas do Jet Propulsion Laboratory, com os 149 597 870 700 metros da unidade astronómica por trás de cada número. O que cabe numa folha é a ordem dos planetas e o dia em que se olhou para eles: a escala fica de fora, e o mais honesto é dizê-lo em letra pequena, no próprio papel.

Fonte e limitações

Distâncias, excentricidades e inclinações orbitais: Jet Propulsion Laboratory da NASA, grupo de dinâmica do Sistema Solar, elementos keplerianos válidos para o intervalo de 1800 a 2050. Definição da unidade astronómica: União Astronómica Internacional, Resolução B2 da XXVIII Assembleia Geral, agosto de 2012. Raios nominais do Sol e da Terra: União Astronómica Internacional, Resolução B3 da XXIX Assembleia Geral, 2015. Posições heliocêntricas: teoria VSOP87, Bretagnon e Francou (1988), Bureau des Longitudes, coeficientes distribuídos pelo Centre de Données astronomiques de Strasbourg.

Todos os valores em milímetros e em micrómetros são contas feitas a partir dessas fontes, com os pressupostos declarados no texto: Sol no centro da folha, raio útil igual a metade do lado curto, sem margem de impressão, e gota de tinta de 84,67 micrómetros, que é o que corresponde a uma resolução de 300 pontos por polegada.

Os semieixos maiores publicados com a teoria VSOP87 não constituem uma medição independente das efemérides do Jet Propulsion Laboratory: as constantes de integração da teoria foram ajustadas à integração numérica DE200. As escalas dos modelos físicos citados são as publicadas pelas respetivas instituições, e a sua existência no terreno em setembro de 2026 não foi verificada.