As sete colinas de Lisboa vêm de um livro de 1620, e uma delas não tem nome
O Funicular da Graça leva catorze pessoas de cada vez da Rua dos Lagares, na Mouraria, até ao miradouro da Graça. Reabriu ao público a 30 de abril de 2026 e, nas duas primeiras semanas, transportou mais de 3 600 pessoas, segundo a Carris. O projeto é do arquiteto João Favila Menezes e recebeu o Prémio Valmor. Existe pela razão mais simples que há: entre a rua de baixo e o largo de cima há uma encosta, e a encosta é íngreme.

A colina que este funicular sobe está descrita num livro de 1620, e é desse livro que vem o número sete. A lista que hoje se repete não é a que lá está.
Este post é essa lista, lida na fonte.
De onde vem o número
O livro chama-se Livro das Grandezas de Lisboa e é de Frei Nicolau de Oliveira, religioso da Ordem da Santíssima Trindade e natural da cidade que descreve. Foi impresso em Lisboa por Jorge Rodrigues, e a taxa, que é a licença oficial que fechava o processo de impressão, está datada de 8 de outubro de 1620.
A descrição dos montes está na folha 60, no capítulo sobre o sítio da cidade de Lisboa e a sua grandeza. A folha confirma-se dentro do próprio livro: mais à frente, a propósito da salubridade de Lisboa, o autor remete para trás e escreve «como acima fica ditto fol. 60».
As passagens que se seguem são transcrições, com a grafia e a pontuação do impresso.
«…o a que propriamente chamamos Cidade situada sobre sete montes muy altos, & de muita distancia entre huns, & outros.»
É esta a frase que fundou o número. Não vem de uma medição, não vem de um levantamento, não vem de uma carta topográfica. Vem de um religioso a descrever a cidade onde nasceu, no meio de um capítulo sobre o sítio dela.
Convém dizer que género de livro é este, porque muda a leitura. É uma obra de louvor, escrita para engrandecer Lisboa. Um autor com essa intenção não conta montes com um instrumento na mão: conta-os com um argumento na cabeça.
E o que ele escreve a seguir, monte a monte, é mais interessante do que a frase.
A lista que se repete tem um nome que não está no livro
Frei Nicolau não se fica pelo número. Numera os montes de nascente para poente, do primeiro ao sétimo, e a cada um atribui as freguesias que o ocupam.
Seis dos sete recebem nome: o de São Vicente de Fora, o do Castelo, o de Santa Ana, o de São Roque, o das Chagas e o de Santa Catarina de Monte Sinai. O segundo não recebe nenhum. Entra no texto como «Á mão esquerda deste monte em respeito do Occidente, se vay levantando outro monte» e fica identificado só pelas freguesias que o ocupam: São Miguel a nascente, São Pedro a poente e São Tomé, «quasi no cume».
A lista das sete colinas de Lisboa que hoje circula, em guias e em enciclopédias, é outra: São Jorge, São Vicente, São Roque, Santo André, Santa Catarina, Chagas e Sant’Ana.
A comparação é fácil de fazer e não precisa de erudição nenhuma. Seis desses nomes têm correspondência direta no livro. Santo André não tem. Na fonte, Santo André é uma das seis freguesias que ocupam o primeiro monte, e dá nome a uma porta e a um postigo da muralha. Monte, não é. E o monte que ficou sem nome, o de Alfama alta, não é chamado Santo André nem coisa nenhuma.
Há uma segunda ideia que circula com a mesma força: a de que Frei Nicolau se teria esquecido da colina da Graça, escondida atrás da do Castelo para quem chega pelo rio. A leitura da fonte não a confirma. A Graça está lá, e está nomeada, logo no princípio da descrição do primeiro monte: «começa-se este monte a levantar da parte do Oriente do Illustre Mosteiro de Sancta Clara, e sobe té São Vicente, e se acaba em nossa Senhora da Graça, onde se acaba também o muro da Cidade.»
A Graça não é uma colina esquecida. É o cume da primeira.
Nada disto é descoberta de arquivo, e não é preciso acreditar em ninguém. O exemplar de 1620 está digitalizado e o capítulo lê-se do princípio ao fim; a reimpressão da Impressão Régia, de 1804, traz a mesma passagem nas páginas 115 a 119. Quem quiser conferir, confere.
O interesse do caso também não está em apanhar ninguém em erro. Está em ver como se faz uma lista que ninguém assinou: alguém arredondou uma descrição em nomes de santos, os nomes ficaram fáceis de decorar, e passaram de guia para guia até parecerem tão antigos como a fonte.

Sessenta e seis anos antes eram cinco
Antes de haver sete houve cinco, e essa contagem também tem autor.
Damião de Góis publicou em 1554, em Évora, a Urbis Olisiponis Descriptio, uma descrição de Lisboa escrita em latim. A frase que interessa é esta, transcrita: «Itaque collibus quinque, vallibus totidem feracissimis, & iucundissimis, vrbs tanto spatio complectitur.» Collibus quinque: cinco colinas.
«A cidade, sentada em cinco colinas e outros tantos vales feracíssimos e agradáveis, abarca um espaço tal que o perímetro pode atingir uns sete mil passos.»
Góis dá o número e segue. Não faz lista, não nomeia colina nenhuma, e a lista de cinco nomes que às vezes se lhe atribui é uma reconstrução a partir do percurso que ele descreve, não uma coisa escrita no texto. Mais atrás no mesmo texto, diz que a cidade antiga ocupava uma colina só, e que a de então já se estendia por vários montes e vales.
Frei Nicolau conhecia o texto. Cita Damião de Góis no mesmo capítulo em que conta os montes, a propósito da extensão da cidade. Não é um autor a ignorar o outro. É um autor a ler o outro e a mudar-lhe o número.
O terreno era o mesmo nas duas datas. O que mudou foi a cidade, que cresceu, e a régua de quem a contava.

E Roma também nunca teve uma lista
O modelo estava à vista de toda a gente e chamava-se Roma. Só que não existe uma única passagem antiga que catalogue as sete colinas de Roma num sítio só: o número aparece em Virgílio, em Cícero, em Tibulo e em Varrão, e a lista não aparece em lado nenhum, como notou S. B. Platner em Classical Philology, em 1906. Quando Festo transcreve a relação que explicaria o nome da festa romana das colinas, saem oito nomes.
O que Frei Nicolau importou de Roma foi um número, porque lista Roma nunca teve nenhuma para dar.
As alturas que ninguém publica
Frei Nicolau escreveu que o terceiro monte, o do Castelo, era «o mais alto entre todos». Não era.
O estudo do CERIS, do Instituto Superior Técnico, publicado pela Agência Portuguesa do Ambiente em março de 2017 no âmbito do plano geral de drenagem de Lisboa, publica as cotas de cinco cumes do concelho. São cotas, ou seja alturas contadas a partir do zero altimétrico do país e não a partir da rua que passa em baixo.
O cume do Castelo de São Jorge está a 110,7 metros. A Penha de França está a 127,9 metros, ou seja 17,2 metros acima do Castelo, e não consta de nenhuma lista das sete. O ponto mais alto do concelho fica em Monsanto, a 227,8 metros, mais do dobro do Castelo, e também não é colina de lista nenhuma.
O mesmo relatório faz outra coisa. A certa altura chama «as sete colinas», «tradicionalmente designadas», a este conjunto: Castelo, Graça, Monte, Penha de França, São Pedro de Alcântara, Santa Catarina e Estrela. Com a lista de 1620 coincidem o Castelo e Santa Catarina, e mais nenhuma. Não é um blogue de viagens: é um relatório de universidade entregue a uma autoridade ambiental.
E é aqui que aparece o buraco. Das sete de Frei Nicolau, só o Castelo tem cota publicada, e é esta. Nenhuma instituição portuguesa publica a altura de cada um dos sete montes de Frei Nicolau. A Câmara Municipal de Lisboa mede o concelho por classes de altimetria, no relatório de caracterização biofísica de fevereiro de 2010, e classes não são cumes. Para a colina da Graça, que é a que o funicular sobe, não há um único valor publicado por instituição: os números que correm vêm de sítios de turismo e não concordam entre si.
A tentação, chegado aqui, é calcular. Existe um modelo de terreno europeu de acesso aberto, o EU-DEM do programa Copernicus, com uma grelha de 25 metros, e uma consulta devolve uma altura para qualquer ponto do país. Fez-se essa consulta para este artigo, e fez-se primeiro no único sítio onde ela se pode conferir contra um valor institucional. Nos pontos consultados dentro do recinto do Castelo de São Jorge, o modelo devolve entre 87,6 e 89,2 metros, contra os 110,7 do estudo do Técnico. Um desvio de vinte e um a vinte e três metros, muito acima da margem de erro que o próprio modelo declara para si.
Uma grelha com células de 25 metros não resolve esporões urbanos estreitos. Por isso este artigo não publica altitudes calculadas para as sete colinas de Lisboa. Publica as três que estão publicadas, diz quem as publicou, e diz que as outras não existem em lado nenhum.
Há ainda uma razão de fundo para a falta, e não é desleixo de ninguém. A altura de uma colina depende de onde se decide que ela acaba, e as de Lisboa foram cortadas por aterros, pela reconstrução da Baixa e pela abertura das avenidas. O terreno de hoje não é o que Frei Nicolau viu.

O que um mapa de ruas mostra, e o que não mostra
Um cartaz de ruas de Lisboa não mostra as colinas. Convém dizê-lo antes e não depois.
O Mapa da Cidade desenha-se a partir de um ficheiro de dados com nove camadas, e lê três: as vias, a água e o uso do solo. Delas saem as ruas, o rio, os parques e mais nada. Não existe no ficheiro camada nenhuma de altimetria, e o cartaz não tem curvas de nível, não tem sombreado e não tem cotas.
O que essas camadas dão é muito. Dão o traçado inteiro de uma cidade, do eixo mais largo ao caminho mais fino, a linha de água e as manchas de parque e de mata. Num mapa de Lisboa dão o Tejo, a quadrícula da Baixa e o emaranhado de Alfama, que se reconhece à distância de uma sala.
O que não dão é a altura. A consequência é literal: a colina do Castelo e o vale da Baixa saem desenhados exatamente da mesma maneira. O relevo que fez a cidade, que fez o mito e que faz os funiculares não aparece.
E não aparece por decisão, não por falta de meios. A maneira de pôr uma colina num mapa plano está fixada desde 1799, quando Johann Georg Lehmann publicou a regra das hachuras, em que o escurecimento do traço é proporcional ao declive da encosta. A técnica existe. O cartaz é que não a usa, porque o desenho é de ruas e de água.
Quem comprar um cartaz de Lisboa à espera de ver os sete montes não os vai ver. Não é falha do ficheiro nem limitação do desenho: é o que este desenho é, e é melhor sabê-lo antes. A cidade que fez o mito é exatamente a cidade que o mapa deita ao chão.

O que fica
Fica um número com autor, com data e com folha. Fica uma lista copiada durante séculos, com um nome a mais e um monte sem nome nenhum. Ficam três alturas publicadas, num concelho que tem muito mais colinas do que três. O Mapa da Cidade desenha as ruas de Lisboa e a água de Lisboa com todo o rigor, e não desenha uma única das suas colinas: quem quiser o relevo tem de o ir buscar ao terreno, que é onde ele sempre esteve.
As transcrições de 1620 são do Livro das Grandezas de Lisboa, de Frei Nicolau de Oliveira, impresso em Lisboa por Jorge Rodrigues, folhas 60 a 63, lidas no exemplar digitalizado e confirmadas parágrafo a parágrafo contra a reimpressão da Impressão Régia, Lisboa, 1804, páginas 115 a 119. Mantêm a grafia e a pontuação do impresso, com o «s» longo reposto; as duas edições divergem numa palavra da frase citada, «muita» em 1620 e «muyta» em 1804. A transcrição latina de 1554 e a tradução portuguesa são da Urbis Olisiponis Descriptio de Damião de Góis, na edição bilingue com tradução de Raul Machado, Lisboa, 1937. A lista de cinco nomes por vezes atribuída a Damião de Góis não está no texto dele e não é aqui usada. A ausência de um catálogo antigo das sete colinas de Roma e a lista de oito nomes de Festo seguem S. B. Platner, «The Septimontium and the Seven Hills», Classical Philology, janeiro de 1906.
As três altitudes, a citação sobre as «sete colinas» ditas tradicionais e as cotas da zona ribeirinha vêm de uma fonte única: o estudo do descritor hidrogeologia para os túneis do plano geral de drenagem de Lisboa, do CERIS, Instituto Superior Técnico, coordenado por Luís Filipe Tavares Ribeiro, março de 2017, publicado pela Agência Portuguesa do Ambiente. A Câmara Municipal de Lisboa deu 226 metros para Monsanto numa página institucional já arquivada, contra os 227,8 metros do estudo, e a diferença fica registada. Não há altitude publicada por instituição portuguesa para a colina da Graça, nem para o miradouro da Senhora do Monte, e por isso nenhum número lhes é atribuído neste artigo. As classes de altimetria do concelho estão no relatório síntese de caracterização biofísica de Lisboa, da Câmara Municipal de Lisboa, fevereiro de 2010. O modelo de terreno consultado é o EU-DEM v1.1 do Copernicus Land Monitoring Service, com grelha de 25 metros, interrogado através da OpenTopoData; os valores que devolve para o Castelo de São Jorge não batem certo com o valor institucional e não se publicam altitudes calculadas a partir dele.
Dados do funicular, incluindo a data de reabertura e o número de passageiros das primeiras semanas: Carris, operador municipal, em setembro de 2026. O serviço e os horários mudam, e quem os quiser confirmar deve consultar o operador na data em que lê.
Dados do mapa © OpenStreetMap contributors, licença ODbL.



